1# SEES 7.1.15

     1#1 CARTA AO LEITOR  AGORA, AO TRABALHO...
     1#2 ENTREVISTA  EDWARD FRENKEL  SOB O COMANDO DOS ALGORITMOS
     1#3 LYA LUFT  O ANO DOS GUERREIROS
     1#4 MALSON DA NBREGA  DA NORUEGA PARA A FRICA E OUTROS DESASTRES DA PETROBRAS
     1#5 LEITOR

1#1 CARTA AO LEITOR  AGORA, AO TRABALHO...
     Uma reportagem desta edio de VEJA, a primeira do ano que comea, trata da urgncia em consertar a economia brasileira em desarranjo. Nessa tarefa, o governo no pode perder tempo nem dispersar energia em egocentrismos ou disputas ideolgicas internas.  hora de, juntos, reativarmos os motores que fazem o Brasil andar para a frente e, assim, lidar com os desafios de 2015, que no so poucos nem simples. A reportagem mostra que est avariada a casa de mquinas da economia brasileira. Ser preciso, simultaneamente, manter em funcionamento os geradores de riqueza e consert-los  um desafio de dupla complexidade apresentado aos dirigentes do pas neste segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. 
     Junto com a faixa presidencial, Dilma recebeu de Luiz Incio Lula da Silva, h quatro anos, uma economia organizada e em crescimento. Em um mundo ainda soprando as feridas da crise financeira de 2008, o Brasil sobressaa por ter agido com vigor e no momento adequado, conseguindo absorver muitos dos impactos negativos do turbulento cenrio internacional. Ao tomar posse em seu segundo mandato, na quinta-feira passada, em Braslia, Dilma recebeu de si mesma uma herana amarga. Resultado de apostas erradas, ditadas por uma viso preconceituosa e arcaica das relaes do Estado com as foras de mercado, Dilma 1.0 entregou a Dilma 2.0 uma economia com urgncia de ajustes drsticos e imediatos. 
     A operao de salvamento vem sendo planejada h um  ms por Joaquim Levy, o novo ministro da Fazenda, que Dilma foi buscar no Bradesco (o segundo maior banco privado brasileiro) e  um profundo conhecedor da mquina pblica. O Plano Levy tem por objetivo prioritrio devolver ao pas a credibilidade perdida nos quatro ltimos anos. Isso significa demonstrar, sem rodeios, a vontade e a possibilidade do Brasil de defender "a sanidade da moeda e a santidade dos contratos", sabedoria secular inglesa para uma poltica econmica capaz de manter a inflao sob controle e de respeitar os termos financeiros dos acordos, especialmente aqueles firmados por empresas privadas com o governo. 
     Essa, acima,  a condio bsica para atrair capital de longo prazo, dinheiro de investidores convencidos das vantagens de ficar muito tempo no Brasil, tornando-se parceiros do nosso sucesso e solidrios nas adversidades do caminho que, mesmo s vezes tortuoso, eles sabem ser o correto. Esses investidores foram afugentados do Brasil pelos erros de poltica econmica cometidos nos primeiros quatro anos de Dilma Rousseff no Palcio do Planalto. No vcuo deles, vieram no os dlares comprometidos com a sade financeira duradoura do Brasil, mas aqueles que lembram as aves de arribao, pois "se faz bom tempo elas vm, se faz mau tempo elas vo". Se os juros esto altos e o cmbio valorizado, eles vm; do contrrio se mandam. 
     VEJA acredita na possibilidade da nova poltica econmica de atrair investimentos produtivos e, assim, retomar o caminho para trazer estabilidade e progresso para todos os brasileiros. 


1#2 ENTREVISTA  EDWARD FRENKEL  SOB O COMANDO DOS ALGORITMOS
Um dos maiores pensadores da matemtica moderna afirma que a baixa qualidade do ensino afasta o grande pblico do conhecimento e abre precedente para inovaes perigosas.
RENATA BETTI, DE BERKELEY

O matemtico russo Edward Frenkel, 46 anos, acredita que o domnio da matemtica por um pequeno grupo de pessoas pode ser perigoso para a sociedade. Por isso busca atingir o grande pblico  que, em geral, no tem paixo pelos nmeros. No livro Amor e Matemtica, recm-lanado no Brasil, ele relata tambm sua difcil trajetria. Nascido na Unio Sovitica e discriminado nos estudos por ser judeu, Frenkel pulava o muro da Universidade de Moscou para assistir s aulas. Aos 17 anos, ele solucionou uma questo matemtica complexa que desafiava grandes estudiosos  emoo que compara  "do primeiro beijo". Aos 21, foi convidado para estudar em Harvard, conquistando o doutorado em dois anos. Hoje, d aulas na Universidade da Califrnia em Berkeley, onde concedeu esta entrevista. 

Por que tanta gente detesta matemtica? 
Existem vrios fatores. A principal razo de grande parte das pessoas no gostar de matemtica  porque no sabe do que se trata. Mas pensa que sabe, o que  pior ainda, pois foi apresentada na escola a uma frao minscula do tema, de forma muito ruim, e ficou com um gosto amargo na memria. Uma das misses a que me proponho  diminuir o estrago causado pelo sistema de ensino. Seria muito mais fcil se meus leitores nunca tivessem ouvido falar do assunto e eu pudesse explic-lo partindo do zero. 

O que o senhor faria, ento? 
Falaria de coisas totalmente diferentes daquelas que costumam ser explicadas nas escolas de hoje. H, no ensino, paradoxos que considero inaceitveis. Um exemplo: o mundo  governado por algoritmos. Eles esto na base de algumas das maiores inovaes humanas. E, no entanto, o indivduo pode atravessar boa parte da vida jogando videogame, fazendo compras on-line e falando com amigos no Facebook sem ter ideia de quanta matemtica existe em tudo isso. Por que no aproveitar essas novas situaes do cotidiano para chamar ateno para a matemtica e explicar como ela funciona, em vez de recorrer a assuntos gastos, que ningum entende? Garanto que haveria muito mais interesse. 

As pessoas talvez temam enfrentar raciocnios exageradamente abstratos, de difcil compreenso... 
Mas o mundo est cada vez mais abstrato, em todos os aspectos. O exemplo mais evidente  o dinheiro. Antigamente, com o escambo, era fcil entender que um peixe poderia ser trocado por um pedao de carne. Depois, inventou-se o padro-ouro, que ainda era algo bastante concreto. Com a criao do dinheiro, um pedao de papel adquiriu valor. Agora, usamos carto de crdito, ou o bitcoin, que est em algum lugar na nuvem. Todas essas abstraes surgem da manipulao de cdigos numricos. Por isso, precisamos ensinar as crianas a navegar nessa nova realidade. No  algo simples. O fato de elas entrarem em contato desde muito cedo com computadores, tablets e smartphones, e olharem para esses instrumentos de forma natural, facilita bastante. Se no disseminarmos o conhecimento sobre os mecanismos tecnolgicos, correremos o risco de ele ficar cada vez mais concentrado nas mos de poucas pessoas. 

Por que isso o preocupa tanto? 
Porque cada vez mais esse conhecimento permite que nmeros e cdigos assumam o lugar do homem. Graas a algoritmos sofisticados, por exemplo, empresas como a Amazon e o Google monitoram a rede e recomendam produtos, potencializando seus negcios de forma inimaginvel h at pouco tempo. Os compradores acham que esto decidindo por conta prpria, quando na verdade so influenciados por programas que analisam seu histrico e cruzam dados para prever seu comportamento. A maioria das pessoas nem sequer percebe que est sendo influenciada por uma mquina. Se tivessem um mnimo de conhecimento sobre o assunto, elas teriam pelo menos a chance de refletir criticamente antes de fazer suas escolhas. 

O senhor  contra as aplicaes feitas com base na matemtica? 
Claro que no todas, mas  preciso cuidado ao manipular nmeros que interferem no comportamento humano. Se h algo que algoritmos e mquinas no substituem so as emoes e a capacidade de julgamento  em outras palavras, a intuio. Por isso eu me preocupo, sim, com os caminhos que esto sendo tomados por gente que, embora entenda at demais do assunto, no tem os mesmos filtros que a maioria. 

A quem o senhor se refere? 
Algumas das mentes mais brilhantes da atualidade, especialmente aqui, no Vale do Silcio, esto tentando criar mquinas capazes de fazer uploads de nossa mente. H gente muito poderosa envolvida  como Ray Kurzweil, chefe de engenharia do Google. O problema  que determinados cientistas, como Kurzweil, encaram humanos como mquinas e acham que um pode substituir o outro. Quando se pensa assim e se tem muito poder, h um tremendo risco de criar robs e mquinas sem controle. 

O senhor no est sendo alarmista demais? 
Infelizmente, no. Quem pensa que uma batalha entre robs e seres humanos  coisa de fico cientfica est enganado. No  preciso ir longe para encontrar os alertas. As pessoas passaram a delegar aos computadores funes cruciais do cotidiano. J existem diversos relatos de avies no tripulados desenvolvidos para o disparo de msseis. H apenas alguns anos, em 2008, o uso indiscriminado de modelos matemticos inadequados para controlar aplicaes financeiras esteve na origem da maior crise que o mundo j viu, graas ao desequilbrio no acesso s informaes capturadas por modelos matemticos. Esto a dois exemplos poderosos de mquinas que substituem o julgamento humano  nem sempre com os melhores resultados. 

O ensino da matemtica nos Estados Unidos  melhor que em outros pases? 
No necessariamente. O currculo  o mesmo, independentemente do lugar. Tomemos a geometria: os alunos at hoje a aprendem como se a Terra fosse plana, com base em ideias desenvolvidas por Euclides de Alexandria 300 anos antes de Cristo! Uma aula interessante, eficaz e atual de geometria abordaria fenmenos e descobertas ps-euclidianos, como a teoria do caos, a formao de nuvens e os movimentos de placas tectnicas que levam  formao de tsunamis. Mas, para que isso funcione, os professores tambm tm de mudar a forma como ensinam, que  a mesma desde sempre. 

Como os professores reagem s suas crticas? 
Eles as detestam,  claro. Mas isso no me abala, porque considero que privar algum de conhecimento  escandaloso. Equivale a um roubo. Os professores repassam dogmas em vez de conectar a matemtica com o mundo real e mostrar suas aplicaes.  uma prtica to estabelecida que eu mesmo s fui perceb-la h cerca de um ano, quando decidi escrever o livro. Estudo a disciplina desde os 15 anos e nunca tinha refletido sobre isso. Quando decidi me desligar de problemas e teoremas para refletir sobre como a cincia  ensinada de fato, fiquei chocado. Cheguei  concluso de que alguns colegas preferem deixar as coisas como esto, pois alimenta o ego deles saber de assuntos que ningum mais entende. 

Por que  to difcil modificar esse comportamento? 
O impulso de fazer as coisas de forma automtica  muito poderoso. Alm disso, existe o sentimento generalizado de que estudar tem de ser divertido, principalmente nos Estados Unidos. Na Rssia, onde cresci, isso no faz sequer sentido. Claro que d prazer encontrar a soluo para um desafio ou aprender algo novo, mas os estudantes russos sabem que devem trabalhar duro e entendem que sempre foi assim. Quero que meus alunos de Berkeley se sintam bem nas minhas aulas, vejam os resultados e fiquem felizes de poder aprender, mas isso no significa que vai ser fcil.  justamente o contrrio.  a conquista que traz satisfao. 

As competies entre alunos do mundo todo no estimulam o interesse pela cincia? 
No existe uma relao entre ganhar uma competio e saber matemtica de fato. Pode-se treinar  exausto e conseguir resolver os problemas de forma rpida, que  a principal habilidade exigida nessas disputas, sem necessariamente ter talento e raciocnio para fazer a cincia evoluir. Isso, obviamente, no quer dizer que olimpadas de matemtica no sejam importantes para a disciplina e o treino desses alunos. Mas descobrir e solucionar grandes problemas que ningum nunca resolveu  a misso mais nobre da matemtica  exige outro tipo de habilidade. A grande maioria dos pequenos campees olmpicos provavelmente vai se dedicar a outra coisa na vida. 

Nesse cenrio inspito, o que exatamente o atraiu para a matemtica? 
O poeta ingls William Blake disse certa vez que, "se as portas da percepo  fossem limpas, tudo apareceria ao homem tal como realmente : infinito". Para mim,  uma forma de limpar as portas da percepo. Sempre gostei de cincias, mas, quando adolescente, tudo o que tinha a ver com matemtica me parecia sem nenhum propsito. Era a fsica, especialmente a fsica quntica, que me interessava, pois eu achava que seriam os fsicos aqueles que encontrariam as respostas s grandes questes sobre a origem do universo. Foi s aos 15 anos, no penltimo ano do colegial, que conheci um matemtico, amigo dos meus pais, que, para me atrair  rea, me apresentou um enigma ligado  fsica e um livro de formas. Naquele momento, percebi que as frmulas e os teoremas forneciam as respostas s perguntas que eu trazia comigo havia muito tempo. Foi como uma epifania, uma sensao indescritvel. A decidi mergulhar nesse mundo. 

Por que o senhor diz que a matemtica transcende o tempo e o espao? 
Porque ela  uma linguagem universal. Veja, por exemplo, o teorema de Pitgoras, criado h mais de 2000 anos. Ele nunca teve nenhuma atualizao e nunca ter. Ser sempre igual e poder ser entendido em qualquer lugar do mundo, em qualquer poca. Isso  impressionante. Em um mundo com tantos conflitos, falamos sempre das coisas que nos separam e raramente encontramos fatos que nos unam. O que apenas os humanos tm em comum? Somos os nicos que fazem clculos matemticos. Alis, as frmulas no podem ser patenteadas porque so verdades universais, pertencem  humanidade. No  toa, a matemtica est por trs de grandes feitos humanos tambm em diferentes reas. 

Quais, por exemplo? 
Observe o sistema de notas musicais, suas batidas ou frequncia. So os nmeros que esto l dando sustentao a tudo. Ou ento as artes plsticas. O que so os quadros de Escher (artista grfico holands), com suas figuras simtricas e ilusionistas, seno prodgios possibilitados pela matemtica?  claro que, com isso, no quero dizer que no h nada alm de nmeros no mundo  pelo contrrio. Quando ouo uma msica muito especial, que me faz chorar, no consigo explic-la com uma frmula.  muito mais do que razo.  algo que me conecta com um sentimento profundo, sem traduo concreta. Um computador pode fazer desenhos simtricos e programar msicas, mas no vai me fazer chorar. 

Qual  sua ambio, agora? 
Quando voc  jovem e ingressa na profisso, s pensa em acumular prmios. Aos 21 anos, quando fui convidado para o doutorado em Harvard, eu tambm sonhava com uma carreira brilhante, com muitos diplomas e medalhas pendurados em meu escritrio. Aos poucos, porm, percebi que, quando voc tem segurana sobre si prprio e sobre a importncia de sua contribuio, deixa de se preocupar com esse tipo de coisa.  o que ocorre comigo. Tenho clareza de minha misso: ajudar as pessoas a se conectar com a matemtica e a desmistificar a noo de que ela seja algo intransponvel e incompreensvel. Se conseguir avanar nesse caminho, terei alcanado o prmio mximo. 


1#3 LYA LUFT  O ANO DOS GUERREIROS
     Bem complicado comea este ano de 2015. Desejo a todos os meus amigos bons amores, belos projetos, algumas realizaes e a esperana  mo, sempre. Sem ela no vivemos, sem ela murchamos, no existimos sem acreditar que coisas boas vo acontecer. 
     Amigos queridos ficam doentes, pessoas amadas se vo, para muitos o emprego tambm, nestes tempos de crise to sria. O amor se perdeu para alguns, traio ou simplesmente desencanto e tdio. Famlia complicada, e qual delas no tem seus dramas ou dilemas? Mesmo assim,  o cho sobre o qual aprendemos a caminhar, nela se desenha o perfil que buscaremos realizar em ns pelo resto da vida... grave o papel desse grupo, s vezes uma pessoa s, que chamamos "nossa famlia": aqueles de quem sabemos  ou de quem esperamos  que, mesmo quando no nos entendem, nos respeitam e nos amam. E assim a gente segue avanando, s vezes com algumas paradas  beira do poo da depresso, to perigoso: se nos engole, pode no nos devolver mais. E depresso, como neurose, paralisa e emburrece.  pssima conselheira. No leva a nada, no adianta nada. O jeito  enxot-la para longe, fazer terapia, respirar fundo, caminhar ao sol, escolher o lado ensolarado da rua da vida, segurando na mo s vezes cansada ou trmula a bandeira do otimismo. No delirante, no cor-de-rosa, no ingnuo, mas otimismo de guerreiros, que  o essencial. A gente vive na guerra cotidiana de no apenas sobreviver, mas viver se respeitando, pois s assim respeitaremos os outros. 
     A vida  para ser vivida, e mais que isso, para ser administrada, para ser domada, com nossas escolhas. Sinto muito: no somos sempre, nem mesmo em geral, vtimas de fatalidades. s vezes somos, sim. A filha jovenzinha de conhecidos meus foi assaltada, 3 da tarde, entregou bolsa e carro, mas, quando se afastava, o bandido, drogado ou simplesmente perverso, deu-lhe um tiro nas costas. A menina ficou paraplgica. O animal que a trucidou saiu andando, no foi apanhado, deve estar se refocilando no seu mundo diablico ou sua nuvem de drogas. Isso  fatalidade. 
     Mas, na grande maioria das vezes, a gente escolhe: de um lado  bom no sermos meros tteres de deuses caprichosos; de outro lado complica, pois somos  ai de ns  responsveis. Sair da infncia, emergir da adolescncia, significa muita coisa boa, um toque de liberdade e independncia cada vez maior, mas com ele chega essa inefugvel senhora Responsabilidade. Escolho o bem, o mal, o torto, o reto? Quem me dir o que  errado ou certo? Que modelos tenho para seguir, que afetos me fizeram mais seguro ou mais dbil, que circunstncias neste mundo, nesta cidade, neste grupo, nesta famlia que no escolhi antes de nascer? 
     No sou de contabilizar e fazer listas de decises "para o prximo ano", pois no acredito nelas. Vou casar, vou separar, vou ter filho, vou emagrecer, vou pedir demisso, vou fazer faculdade, ou aquela iluso do "vou fazer a lipo, o lifting, assim fico mais feliz, assim vo me amar mais"... Listas pouco produtivas. A escolha melhor  a do momento, qualquer dia do ano: vou parar de beber, e a partir de agora nem uma gota. Grupo de Alcolicos Annimos, terapia, seja o que for, a base de tudo ser a fora de vontade, que assusta e faz querer sair correndo. Vou parar de fumar, aquele de uma hora atrs foi o derradeiro. A grande maioria no consegue. Alguns tentam vrias vezes. Um ou outro, enfim, fica firme, e comea a contagem positiva: faz um ano, faz cinco anos, faz dez anos que no bebo, no fumo, no uso drogas. 
     Guerreiros somos todos ns, tambm os que simplesmente vivem seu cotidiano sem tragdias. Temos de ser guerreiros para conquistar, cultivar, preservar amores, amizades, trabalho, autoestima, viso de mundo  porque isso tambm faz parte: uma filosofia de vida, que significa valores. Que valores eu tenho? Boa pergunta para a virada de ano: o que, para mim,  de verdade importante, positivo, bom, o que me faz bem e me ajuda a fazer bem aos outros? Pergunta  e resposta  de guerreiro. 
     E que a esperana esteja sempre ao alcance da mo. 


1#4 MALSON DA NBREGA  DA NORUEGA PARA A FRICA E OUTROS DESASTRES DA PETROBRAS
     Quem diria, um partido de linhagem estatista e, assim, avesso  privatizao, o PT, comandou aes desastrosas na nossa mais admirada estatal, a Petrobras.  enorme o dano  empresa  na imagem, no respeito, no valor de mercado, na sade financeira, no mercado de capitais e na capacidade de investir. So cinco pelo menos os desastres. 
     Primeiro, o uso da Petrobras para financiar campanhas eleitorais, mediante criminosa e sofisticada rede de captao de fundos via superfaturamento de bens e servios  empresa. De lambuja, os operadores fizeram fortuna pessoal. O escndalo de corrupo est ligado s indicaes polticas para cargos de direo. 
     Segundo, a mudana das regras de explorao do pr-sal. Saiu o regime de concesso, tpico de pases de instituies fortes como Estados Unidos, Reino Unido e Noruega. Entraram a cesso onerosa e o regime de partilha caracterstico de pases de instituies frgeis da frica. No regime de concesso, confia-se nas regras do jogo e se fazem negcios como em qualquer atividade. No de partilha, desconfia-se da estabilidade das regras e prefere-se receber em leo. Por ideologia, voluntarismo e megalomania, atribuiu-se  Petrobras o nus de liderar a explorao do pr-sal  a totalidade no caso da cesso onerosa e pelo menos 30% no de partilha. A excessiva responsabilidade lhe imps gigantescas obrigaes e grave endividamento. 
     Terceiro, o controle de preos dos combustveis, que eram vendidos no mercado interno abaixo dos custos de importao. Abandonou-se a frmula pela qual os preos internos eram ajustados de forma transparente e previsvel, com base nos seus valores no Golfo do Mxico e na variao da  taxa de cmbio. Passaram a prevalecer a vontade e os interesses eleitorais do governo. A Petrobras amargou prejuzos de 60 bilhes de reais, o que agravou sua situao financeira. 
     Quarto, negcios superfaturados e sem justificativa empresarial, de que so destaques a refinaria de Pasadena e a de Abreu e Lima, cuja construo foi decidida por Lula com base em critrios polticos. Escassos de justificativa tcnica e plenos de custos excessivos, tais investimentos dificilmente traro resultados semelhantes a outros da empresa  a rigor, caberia ajust-los  rentabilidade mdia, com a correspondente reduo do patrimnio lquido. 
     Quinto, e em consequncia dos demais, o valor de mercado da Petrobras caiu cerca de 80% nos ltimos seis anos. Os investidores estrangeiros, que interpretam a perda como efeito da corrupo, moveram aes coletivas contra a empresa na Justia Federal americana. Alm disso, existem investigaes de natureza criminal e administrativa nos Estados Unidos. Acrescente-se a humilhao de os balanos da Petrobras no terem sido auditados por auditores externos, o que pode acarretar novos problemas  frente. Sero lentas, difceis e custosas a reconquista da confiana dos investidores e a volta do acesso aos mercados interno e internacional de capitais. Ficar mais difcil financiar os investimentos bilionrios do pr-sal. 
     Arrasada e aviltada, a Petrobras precisa de um lder capaz, decente e de alto respeito profissional, designado sem interferncia poltica e que possa preencher os demais cargos com gente preparada. 
     A recuperao da confiana de investidores e fornecedores vai exigir mudanas ciclpicas, incluindo a restaurao do regime de concesso (algo difcil para um governo que no reconhece erros). A Petrobras precisa deixar de ser a operadora nica e de controlar pelo menos 30% dos campos. 
     Deve-se dotar a empresa de slida governana corporativa. Os dirigentes devem ser escolhidos  no mercado ou nos quadros tcnicos  com o apoio de empresas especializadas (headhunters). Indicaes polticas devem ser abolidas.  necessrio criar e/ou fortalecer rgos internos tpicos de companhias abertas e canal interno para denncias. 
     A Petrobras  plenamente recupervel. Possui quadros tcnicos qualificados e comprovada competncia na criao e no uso de tecnologia de pesquisa e explorao de petrleo. A vontade poltica e a coragem na tomada de difceis decises devem prevalecer sobre a ideologia e o voluntarismo.

MALSON DA NOBREA  economista


1#5 LEITOR
RETROSPECTIVA 2014
Espetacular a edio especial Retrospectiva 2014 (31 de dezembro). Sou estudante de direito e a cada dia que passa mais me conscientizo da importncia de VEJA para a democracia brasileira. Parabenizo a revista por sua postura na cobertura do escndalo do petrolo em 2014. A nica soluo para a Petrobras  a privatizao. Desejo um timo 2015 a todos! 
JUSTINO ALVES MARTINS JNIOR 
Fortaleza (CE), via smartphone 

Edio histrica para guardar em bibliotecas, nas escolas e em casa. Com ela, as futuras geraes podero tomar conhecimento de um captulo nebuloso da histria do Brasil, com um partido poltico corrupto, doente, desgastado e em pleno declnio, rumo  prpria destruio. 
IZA MARIA DIETRICH JAWORSKI 
Curitiba, PR 

Excelente a reportagem sobre "O lamentvel ano das falcias (31 de dezembro). Didtica, a reportagem de Andr Petry tem o mrito adicional de nos encorajar a desmascarar outras falcias que abundam por a. Vou carregar essa reportagem debaixo do brao por um bom tempo como medida preventiva para no cair em armadilhas que vo surgir no ano que se inicia. 
TARCISO FILGUEIRAS 
So Paulo, SP 

A maior derrota do Brasil em 2014 no foi a de 7 a 1 contra a Alemanha, mas sim a de 52 a 48 na eleio que renovou o alvar para que o PT continue na contramo com esse governo pfio, corrupto e barulhento por mais quatro anos. Os gols do retrocesso contra o avano deixaro cicatrizes profundas. Quem viver ver. 
DOMINGOS SVIO PEREIRA 
So Paulo, SP 

Sem dvida, a personalidade de 2014 no Brasil foi o excelente e competente juiz federal Srgio Moro. Se tivssemos pelo menos uma pessoa em Braslia com esse carter, retido e amor pelo Brasil, estaramos em outra posio nos principais rankings mundiais. Pena que uma andorinha s no faz vero, muito menos quando se trata de corrupo. 
ANTONIO JOS G. MARQUES 
So Paulo, SP 

Na edio 2406 no foi sequer citada a morte do escritor e educador Rubem Alves, em julho de 2014. Fiquei surpreso. 
JORGE G. DE CAMARGO FILHO 
So Paulo, SP 

VEJA esqueceu de mencionar a morte do locutor esportivo Luciano do Valle, em abril de 2014. Ele era um grande incentivador do esporte brasileiro, especialmente do futebol feminino, to ignorado por nossas autoridades e entidades esportivas. Uma injustia, pois foi uma grande perda para o pas e deveria ter o seu nome em destaque. 
ISMAIL MIGUEL BATISTA 
Ribeiro Preto, SP 

Debaixo da lona verde-amarela, fomos os palhaos da vez no ano que passou. RENATO MENDES PRESTES 
guas Claras, DF 

A SEMANA
Diante de tantos detalhes sobre o petrolo, ser que Ali Bab vai ser responsabilizado ou veremos mais uma vez advogados "Sherazades" protelando por mais 1001 noites ("Delivery internacional", 31 de dezembro)? 
FRANCISCO TEODORICO PIRES PR SOUZA 
Ribeiro Preto (SP), via tablet 

Espero que Venina Velosa da Fonseca, ex-gerente executiva da Petrobras, resista com serenidade aos ataques orquestrados pela guerrilha ciberntica a servio do PT.  evidente que, se tivesse alguma culpa no cartrio, ela teria feito uma delao premiada, e no uma denncia. Lamentavelmente, ainda no apareceu ningum, entre os muitos pares da geloga na Petrobras, para dar-lhe respaldo. Ela foi a nica com coragem para expor o mar de lama e enfrentar sozinha as feras. Venina: no precisa rebater nada que for lanado contra voc  os brasileiros honestos esto cansados de mentiras e sabem distinguir quem est falando a verdade. Alm disso, com o desenrolar do processo, a Justia ter provas suficientes para punir os verdadeiros culpados. 
MARIA SUELY MOREIRA 
Belo Horizonte, MG 

Eu queria acreditar que, no fim da apurao do escndalo da Petrobras, os peixes grados que se beneficiaram dos seus recursos vo receber alguma punio... O jeito  apagar a luz ao sair, e voltar na ltima caravela para Portugal. Ou ento vamos virar ndios, porque feitos de bobos j fomos! 
ABISAIR COSTA LIMA 
guas Lindas de Gois, GO 

J.R. GUZZO 
O contundente artigo "O fim da Histria" (31 de dezembro), de J.R. Guzzo, apresenta uma radiografia completa de um partido poltico que surgiu como uma esperana de renovao, com sua conduta pautada na tica, e que, no entanto, descambou para caminhos tortuosos, priorizando o ilcito e a corrupo, com o propsito, entre outros mais escabrosos, de perpetuar-se no poder a qualquer custo. 
LTJIZ SRGIO ONFTO AKATJO 
Niteri (RJ), via smartphone 

J.R. Guzzo sintetiza de forma estupenda o apagar das luzes do Partido dos Trabalhadores (sic) quando pontua que "h um vale de lgrimas pela frente". Duro  saber que, como sempre, as lgrimas desse vale sero, na sua maior parte, dos mortais contribuintes. 
EDILSON VIRGLIO DA CRUZ 
Bastos (SP), via tablet 

 um privilgio ler J.R. Guzzo. A anlise sobre o descaminho petista  como um quadro em que o pintor no desperdia tinta. Cada pargrafo, cada frase, cada palavra  sem firulas ou rapaps  revela um contedo rico em conciso e clareza. A presidente Dilma Rousseff deveria incluir nos seus hbitos a leitura do articulista. No mnimo, melhoraria em seus discursos, j que, pelo anncio em lotes dos novos ministros (d uma canseira!), teremos mais do mesmo. 
JOS MILTON DE OLIVEIRA 
Braslia, DF 

J.R. Guzzo j deve ter ouvido profusamente que tem o dom da palavra. Ganho extraordinrio para ns, leitores. J.R. Guzzo tem traduzido exemplarmente os fatos destes ltimos tempos. Espero que sempre, nos anos vindouros, ele continue a nos agraciar com seus artigos. Muitssimo obrigada! 
NADJA NICOLAU 
So Paulo, SP 

Parafraseando o antecessor da presidente Dilma Rousseff, "nunca antes na histria" desta revista havia lido texto mais coerente e realista sobre a tragdia da gesto do PT na Presidncia da Repblica. Um partido que poderia ser um exemplo na poltica acaba por se enlamear da maneira mais nojenta e execrvel possvel. Lamentvel. Parabns, J.R. Guzzo. Espero que esse texto ecoe em todo o Brasil, para manter viva na memria dos eleitores e cidados em geral a triste realidade do PT. 
DELANE BARROS 
Macei (AL), via tablet 

Houve um tempo em que, ao ler alguma crtica ao PT, eu j ia pensando numa boa defesa e em argumentos para reverter a situao. Mas atualmente, com os acontecimentos dirios no Brasil, ficou impossvel fazer isso. As crticas ao PT so indefensveis porque no se trata mais de meras opinies... Infelizmente so fatos! E contra fatos no h argumentos. 
RODOLPHO M. LEMOS 
Campo Grande (MS), via tablet 

Um dos mais brilhantes artigos que li na histria recente. Impressionantes a serenidade, a clareza e o contedo passados aos leitores por J.R. Guzzo. Toro para que muitos o tenham lido, refletido e entendido. Impossvel que o mais ferrenho petista no se tora na poltrona. Basta de PT! Quem no leu o artigo "O fim da Histria" corra e leia. 
AMARILDO AGUIAR PE FREITAS GUIMARES 
Blumenau, SC 

CARTA AO LEITOR 
Aps a retrospectiva de um ano em que realmente pagamos mico, achei perfeito para o momento que estamos vivendo no Brasil o contedo da Carta ao Leitor "Valores e princpios" (31 de dezembro). Admiro a misso de to conceituada revista ao trazer  tona os acontecimentos durante todo o ano de 2014, reforando que, apesar de tudo, o que realmente importa para o nosso bem e o futuro melhor da nao  a formao de valores, crenas, tica, honestidade e carter, independentemente de sexo, religio, posio social e partido poltico. Valores esses acima de quaisquer programas poltico e/ou social. A situao nos entristece e os acontecimentos favorecem, mas, como sugere a Carta ao Leitor, mudando as atitudes cotidianas de cada um de ns podemos mudar o rumo dos fatos. Realmente espero que no venhamos a desistir do Brasil. 
FRANCISCO JOS VALE VIEIRA 
Belm, PA 

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